A gordinha Nazista


Luz Mendiluce foi uma menina encantadora e vistosa, uma adolescente gorda e pensativa e uma mulher alcoólatra e infeliz. Além disso foi, de todos os escritores de sua família, quem teve mais talento.

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A famosa foto de Hitler segurando a menina de poucos meses a acompanhou por toda a sua vida. Numa linda moldura de prata lavrada, presidia o salão de sua casa ao lado de vários retratos de pintores argentinos em que ela aparecia, menina ou adolescente, quase sempre na companhia da mãe. Apesar do valor de alguns desses quadros, não se descarta que em caso de incêndio Luz Mendiluce tivesse salvado das chamas, antes de qualquer outra coisa, inclusive de alguns cadernos com textos inéditos, a fotografia.

 

Às vezes dizia que se tratava de uma órfã, simplesmente, e que a foto tinha sido tirada numa visita a um orfanato, uma das tantas que os políticos fazem para ganhar eleitores e publicidade. Outras vezes explicava que se tratava de uma sobrinha de Hitler, uma menina heróica e infeliz que tinha morrido aos 17 anos enquanto combatia na Berlim assediada pelas hordas comunistas. E às vezes reconhecia sem rodeios que era ela, que Hitler a carregara no colo e que, em sonhos, ela ainda podia sentir seus braços fortes e sua respiração cálida por cima de sua cabeça, e que provavelmente aquele tinha sido um dos melhores momentos de sua vida. Talvez tivesse razão.

 

Lacouture é jovem, elegante, culto, de uma beleza varonil singular, mas não tem um tostão e como poeta é uma mediocridade. Até que ele se casa com a poetisa precoce, Luz aos 16 anos publica sua primeira coletânea de versos. Aos 18 tem em seu ativo três livros editados, vive praticamente só e decide se casar com o jovem poeta argentino Julio César Lacouture. A viagem de núpcias se passa nos Estados Unidos e no México, em cuja capital Luz Mendiluce organiza um recital de poesia. Ali mesmo começam os problemas. Lacouture tem ciúme de sua mulher. Vinga-se pondo-lhe chifres. Uma noite, em Acapulco, Luz sai para procurá-lo. Lacouture está na casa do romancista Pedro de Medina. A casa, onde durante o dia se organizou um churrasco em homenagem à poetisa argentina, de noite se transformou num bordel em homenagem a seu cônjuge. Luz encontra Lacouture acompanhado de duas putas. De início mantém a calma. Bebe duas tequilas na biblioteca, com Pedro de Medina e o poeta realista socialista Augusto Zamora, que tentam tranquilizá-la. Falam de Baudelaire, Mallarmé, Claudel e da poesia soviética, de Paul Valéry e sóror Juana Inés de la Cruz. A menção a sóror Juana é a gota que transborda o copo, e Luz explode. Pega a primeira coisa ao alcance da mão e vai para o quarto à procura de seu marido. Lacouture, em alto grau de intoxicação etílica, está ocupado no processo de se vestir. De um canto do quarto, as putas, em trajes sumários, o observam. Luz não resiste e atinge a cabeça do marido com uma estátua de bronze que representa Palas Atena. Lacouture, com uma forte concussão, tem de ser internado num hospital por quinze dias. Voltam juntos para a Argentina, mas quatro meses depois se separam.

 

Luz afunda no desespero. Entrega-se à bebida, frequenta antros e tem aventuras com personagens portenhos da pior espécie. É dessa época seu famoso poema “Com Hitler fui feliz”, texto incompreendido tanto pela direita como pela esquerda. Sua mãe tenta mandá-la para a Europa, mas Luz se recusa. Na época está pesando mais de 90 quilos (mede apenas 1,58 metro) e costuma beber uma garrafa de uísque por dia.

 

Em 1953, coincidindo com a morte de Stálin e de Dylan Thomas, publica a coletânea Tangos de Buenos Aires, em que, além de uma versão revista e ampliada de “Com Hitler fui feliz”, figuram alguns de seus melhores poemas: “Stálin”, uma fábula caótica que se passa entre garrafas de vodca e alaridos incompreensíveis; “Autorretrato”, provavelmente um dos poemas mais cruéis escritos na Argentina na década de 50, pródiga em poemas desse tipo; “Luz Mendiluce e o amor”, na linha do anterior, mas com certa dose de ironia e humor negro que o torna mais respirável; e “Apocalipse aos 50 anos”, uma promessa de suicídio ao chegar a essa idade, e que, para quem a conhece, pode ser considerada otimista: nessa toada, Luz Mendiluce é forte candidata a morrer antes dos 30.

 

Aos poucos vai se formando ao seu redor uma patota de escritores heterodoxos demais para o gosto de sua mãe ou radicais demais para o gosto de seu irmão. Para os nazistas e os complexados, para os alcoólatras e os sexual e economicamente marginais, a revista Letras Criollas se transforma numa referência obrigatória, e Luz Mendiluce, na grande mãe de todos e na papisa de uma nova poesia argentina que a sociedade das letras, assustada, tentará esmagar.

 

Em 1958, Luz volta a se apaixonar. Dessa vez o eleito é um pintor de 25 anos, louro, de olhos azuis e uma estupidez desnorteante. A relação dura até 1960, quando o pintor vai para Paris com uma bolsa de estudos que Luz, por intermédio de seu irmão Juan, conseguiu para ele. A nova desilusão age como um motor na gestação de outro de seus grandes poemas, “A pintura argentina”, em que examina sua relação nem sempre harmoniosa com essa pintura, sendo ela compradora de arte, esposa de pintor, modelo infantil e modelo adulta.

 

Em 1961, e depois de conseguir a anulação do primeiro casamento, contrai matrimônio com o poeta Mauricio Cáceres, colaborador da Letras Criollas e cultor de uma poesia que ele mesmo denomina “neogauchesca”. Escaldada, dessa vez Luz está decidida a ser uma esposa exemplar: deixa a Letras Criollas nas mãos do marido (o que lhe acarretará sérios problemas com Juan Mendiluce, que acusa Cáceres de ladrão), abandona a prática da escrita e se dedica de corpo e alma a ser uma boa esposa. Com Cáceres à frente da revista, os complexados, os nazistas e os problemáticos em massa logo passam a ser “neogauchescos”. O sucesso sobe à cabeça de Cáceres. Por um instante chega a pensar que já não precisa de Luz nem da família Mendiluce.

 

Quando imagina ser conveniente, ele ataca Juan e Edelmira. E até se dá ao luxo de desprezar a própria mulher. Não tardam a aparecer novas musas, jovens poetisas que se rendem diante da viril proposta “neogauchesca” e por quem Cáceres se deixa atrair. Até que, de súbito, aparentemente alheia e ignorando os negócios de seu marido, Luz volta a explodir. O incidente é comentado à exaustão pelas colunas sociais de Buenos Aires. Cáceres e um redator da Letras Criollas vão parar no hospital com ferimentos de bala, que no caso do redator não terão maiores consequências, mas que manterão Cáceres internado por um mês e meio. O destino de Luz não será muito melhor. Depois de atirar contra o marido e contra o amigo do marido, ela se tranca no banheiro e engole todos os comprimidos do armário de remédios. Dessa vez a viagem à Europa é inevitável.

 

Em 1964, e depois de passar por vários sanatórios, Luz volta a surpreender seus poucos mas fiéis leitores: sai a coletânea Como um Furacão, dez poemas, 120 páginas, prefácio de Susy D’Amato (que mal compreende uma única linha da poesia de Luz, mas é das poucas amigas que lhe restam), publicada por uma editora feminista do México que logo se arrepende amargamente de ter apostado numa “conhecida militante de ultradireita” cuja filiação verdadeira era desconhecida, embora os versos de Luz sejam isentos de alusões políticas, talvez uma metáfora infeliz (“em meu coração sou a última nazista”), mas sempre no plano íntimo. Um ano depois o livro é reeditado na Argentina e consegue algumas críticas favoráveis.

 

Em 1967, Luz volta a se instalar, agora definitivamente, em Buenos Aires. Uma aura de mistério a envolve. Em Paris, Jules Albert Ramis traduziu e publicou praticamente toda a sua poesia. Ela vive na companhia de um jovem poeta espanhol, Pedro Barbero, que faz as vezes de secretário e que ela chama de Pedrito. O tal Pedrito, ao contrário de seus esposos e amantes argentinos, é prestativo, atento (embora talvez meio rude) e acima de tudo leal. Luz retoma a direção da Letras Criollas e se põe à frente de uma nova editora, El Águila Herida. Uma coorte de fãs não tarda em cercá-la e celebrar todos os seus atos. Pesa 100 quilos. Usa o cabelo até a cintura e lava-se pouco. Veste roupas velhas, para não dizer farrapos.

 

Sua vida sentimental sossegou. Ou seja, Luz Mendiluce não sofre mais. Tem amantes, bebe em excesso e às vezes abusa da cocaína, mas seu equilíbrio espiritual se mantém incólume. É dura. Suas resenhas literárias são temidas e esperadas com deleite por aqueles que seu engenho e seus dardos envenenados não atingem. Mantém debates polêmicos e azedos com certos poetas argentinos (todos homens, todos famosos), os quais satiriza cruelmente chamando-os de homossexuais (em público Luz é contra o homossexualismo embora na intimidade conviva com uma profusão de amigos dessa tendência), arrivistas ou comunistas. Boa parte das escritoras argentinas a admira e lê, abertamente ou não.

 

A briga com seu irmão Juan pelo controle da Letras Criollas (a revista em que tanto investiu e tantos dissabores lhe custou) atinge proporções épicas. Perde e leva os jovens consigo. Vive num grande apartamento de Buenos Aires e numa fazenda do Paraná que transformou numa comuna de artistas em que ela reina inconteste. Ali, perto do rio, os artistas conversam, fazem a festa, bebem, pintam, alheios aos cruéis acontecimentos políticos que começam a pipocar vertiginosamente no exterior.

 

Mas ninguém está a salvo. Uma tarde aparece na fazenda Claudia Saldaña. É jovem, é poetisa, é bonita, acompanha uma amiga. Luz a vê e no mesmo instante fica maravilhada. Pede para ser apresentada e não poupa suas atenções. Claudia Saldaña passa uma tarde e uma noite na fazenda e na manhã seguinte volta para Rosário, onde vive. Luz leu seus poemas, mostrou-lhe seus livros traduzidos em francês, a foto de sua primeira infância em que aparece com Hitler, animou-a a escrever; implorou-lhe que a deixasse ler suas poesias (Claudia Saldaña disse que mal está começando, que é tudo muito ruim), ofereceu-lhe uma pequena escultura de madeira que a outra elogiou e, por fim, tentou embriagá-la, para que se sentisse mal e não fosse embora, mas Claudia Saldaña foi embora.

 

Dois dias mais tarde (que passa como sonâmbula), Luz descobre que está apaixonada. Sente-se como uma criança. Consegue o telefone de Claudia em Rosário e lhe telefona. Transtornada, mal contém sua emoção. Quer marcar um encontro. Claudia aceita. Vão encontrar-se em Rosário três dias depois. Luz não se contém, deseja vê-la naquela mesma noite, no mais tardar no dia seguinte. Claudia alega compromissos inadiáveis. Não tem jeito, é impossível. Luz aceita todas as condições, resignada e feliz. Nessa noite chora, dança e bebe até desmaiar. Sem dúvida é a primeira vez que sente algo assim por uma pessoa. O amor verdadeiro, confessa a Pedrito, que concorda com tudo.

 

O encontro em Rosário não é tão maravilhoso como Luz imagina. Claudia lhe expõe clara e francamente os empecilhos para uma relação futura e mais íntima entre as duas: não é lésbica, a diferença de idade é considerável (mais de 25 anos) e por fim suas ideias políticas são opostas, para não dizer claramente antagônicas. “Somos inimigas mortais”, Claudia lhe diz com tristeza. Luz parece se interessar por essa última afirmação. (Ser lésbica ou não, quando o amor é verdadeiro, não lhe parece transcendental. E a idade é uma ilusão.) Mas serem inimigas mortais desperta sua curiosidade. Por quê? Porque eu sou trotskista e você é uma fascistoide de merda, diz Claudia. Luz engole o insulto e ri. E isso é irremediável?, pergunta, morrendo de amor. É irremediável, diz Claudia. E a poesia?, pergunta Luz. A poesia tem pouco a ver com a Argentina nos dias que correm, diz Claudia. Talvez você tenha razão, Luz reconhece, prestes a cair no choro, mas talvez se engane. A despedida é triste. Luz tem um Alfa Romeo esporte azul-claro. Sua rotunda anatomia custa a entrar no carro, mas ela tenta, animada, com um sorriso no rosto. Da porta da lanchonete onde estavam, Claudia a observa sem se mexer. Luz acelera e a imagem de Claudia no espelho retrovisor não se move.

 

Qualquer uma, em seu lugar, teria se rendido, mas Luz não é qualquer uma. Invade-a uma atividade criadora torrencial. Antes, quando sofria de amores e desamores, sua pluma secava por muito tempo. Agora escreve como uma alucinada, pressentindo talvez a fatalidade do destino. Toda noite telefona para Claudia, falam, discutem, leem poemas uma à outra (os de Claudia são francamente ruins, mas Luz evita dizê-lo). Toda noite insiste, suplica um novo encontro. Faz propostas fantasiosas: partirem juntas da Argentina, fugirem para o Brasil, para Paris. Seus planos provocam gargalhadas da jovem poetisa, uma gargalhada desprovida de crueldade, talvez uma hilaridade tingida de tristeza.

 

De repente o campo, a comuna de artistas do Paraná torna-se asfixiante para Luz, que resolve voltar para Buenos Aires. Ali tenta retomar sua vida social, frequentar amigos, ir ao cinema ou ao teatro. Mas não consegue. Também não tem coragem de ir visitar Claudia em Rosário sem sua permissão. Escreve então um dos poemas mais estranhos da literatura argentina, “Minha filha”, 750 versos cheios de amor, arrependimento, ironia. E telefona para Claudia toda noite.

 

Não é descabido pensar que depois de tantas conversas surgisse entre ambas uma amizade sincera e correspondida.

 

Em setembro de 1976, transbordante de amor, Luz pega o Alfa Romeo e sai literalmente voando para Rosário. Quer dizer a Claudia que está disposta a mudar, que na verdade já está mudando. Ao chegar à casa de Claudia encontra os pais dela mergulhados no desespero. Um grupo de desconhecidos sequestrou a jovem poetisa. Luz move céus e terra, recorre às suas amizades, às amizades da mãe, do irmão mais velho e de Juan, em vão. Os amigos de Claudia dizem que os militares é que estão com ela. Luz se nega a crer e espera. Dois meses depois o cadáver é encontrado num lixão na Zona Norte da cidade. No dia seguinte, Luz retorna a Buenos Aires em seu Alfa Romeo. No meio do caminho se espatifa contra um posto de gasolina. A explosão é considerável.

 

Trecho do livro A Literatura Nazista na América,

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